terça-feira, 29 de abril de 2014

Foi por causa dela.

Exatamente. Foi por causa dela.

Tudo começou faz uns 17 anos. Eu era filha única, e amava isso. Mas eu queria muito ter um irmão... E enquanto Deus providenciava isso, ele ''mandou'' uma cachorrinha que faria o papel de irmã, de confidente e de amiga enquanto ele não chegava. Foi quando no meu quarto aninho, uma tia minha me deu de presente uma linda poodle. Amor a primeira vista! Mas nem era lá essas coisas. Como toda criança, eu brincava e arengava muito com ela. E a batizamos de Hanna (quem conhece minha história com ela já deve estar pensando: ''nossa, agora vai começar a melancolia''. E é isso mesmo! Caso não concorde, faça um favor para todos e não termine esta leitura!).
Os anos passaram e ela foi uma companheira e tanta. Mas ela não era tão apegada a mim.. Como todos sabem, o cachorro escolhe um dono para ser fiel e amar mais que aos outros. E ela escolheu minha mãe. Então nossa relação sempre foi de amor, mas um amor meio que distante. Quando viajávamos, ela ia conosco. Quando íamos a praia, ela também ia. Ela era da família. Era nossa família. E a família cresceu, ela teve cinco filhotinhos lindos e perfeitos. Lembro como se fosse ontem quando a bolsa dela estourou... nossa preocupação, nosso medo, o trabalho de parto, o filhote que ficou enganchado com as patinhas pra fora.. Mas graças a Deus,depois de muito trabalho, todos nasceram saudáveis! Demos os outros quatro e ficamos com um. Meu Mike. Minha paixão enquanto Hanna estava com minha mãe. Meu magricelo, meu apego,meu xodó. Xodó que não durou muito tempo, que me abandonou depois de ter sido envenenado (sabe lá Deus se foi uma cobra ou bola mesmo) e tido uma morte trágica e traumatizante pra mim.-E...Sem mais comentários.-
Um belo dia, acho que eu estava na sétima série, recebi a ligação da minha mãe no meio da aula, dizendo que ela estaria grávida. Ah...que sensação inesquecível! Ali eu aprendi que meu Deus realizava sonhos.. Mas é aí que a história toma outro rumo. Quando Daniel nasceu, minha cachorrinha teve uma crise de ciúme muito forte (relata a veterinária) e nasceram alguns tumores em seu corpo. Prova de que isso era verdade? Quando colocávamos meu irmão pra ela cheirar, ela saía de perto, olhava de banda pra ele e não entrava no quarto dele. E de repente a Hanna desapegou da minha mãe.. Foi nesse momento que começou nossa história de forma mais intensa. Ela estava debilitada e carente, e eu, sem perceber, me aproximei dela. Dormíamos juntas. Eu passeava mais com ela. E a rotina já havia mudado sem percebermos, tudo dela era comigo. Devido aos tumores, ela passou por uma cirurgia e todos estávamos preocupados, afinal, ela já era velhinha...Mas ela sobreviveu e melhorou. Mas não por muito tempo. Foi quando a história se repetiu e os tumores voltaram piores. E nesse cuidado e nesse amor maior, só eu e ela sabíamos o que sentíamos. As festas e latidos quando eu chegava em casa. As lambidas em minha mão quando eu estava no chão chorando. O rabinho entre as pernas quando eu brigava com ela e rapidamente um carinho de reconciliação. As dormidas em minha perna. Os latidos sem parar quando eu saía de casa. Aquele olhar meio acinzentado devido a catarata que me conquistava. Os choros intensos toda vez que eu achava que eu ia perdê-la. Os alívios quando isso não acontecia. Os pulos nas piscinas ao meu lado. Os latidos ferozes quando alguém fingia que batia em mim pra me proteger(E há aqueles que dizem que cachorros não sentem!). Era tudo tão verdadeiro e único...
Mesmo debilitada, depois da primeira cirurgia e de nascerem novamente os tumores, passaram-se mais sete anos com ela ao meu lado.  Foi quando meu pesadelo começou... Ela estava com câncer e estava em metástase. Espalhou por todo seu corpo. E ela resistiu. Lutou. E sei que seu amor por mim teve grande contribuição para isso. Eu simplesmente sei.
Depois de 16 anos ao meu lado, eu não imaginaria minha vida sem ela. Idas e vindas ao veterinário. Remédios. Carinho. Nossa vida se resumiu a isso. E passaram-se alguns meses, ela ainda estava lutando. Nunca conheci um cachorro tão resistente quanto ela! As pessoas diziam que ela tinha sangue de vampiro. Foi quando tudo piorou. As convulsões começaram. Febres altíssimas. Desidratação. Falta de apetite. E eu relutando em acreditar que nosso momento estava no fim.. Cada dia era uma luta para nós duas.. Não queríamos nos deixar. Ela entendia minhas lágrimas. E eu entendia seu olhar distante e vago. Foi quando ela parou de andar. E eu decidi não deixa-la mais sofrer! Ah.. decisão que dói em meu peito até hoje, mesmo sabendo que foi o melhor para ela!
Era um sábado, quando logo cedo avisei aos veterinários dela que decidi fazer a eutanásia. Acordei, coloquei ela no braço e fui até nosso jardim.. Ela já não ficava mais em pé. Não fez xixi. Seus olhos olharam nos meus pela penúltima vez,sem brilho. E eu cantei. Cantei assim: ''MEU AMOR É COMO FOGO, ARDE COMO O SOL! AS ÁGUAS NÃO PODERÃO O AFOGAR MEU AMOR, NÃO SE APAGARÁ!'' E cantei. cantei muitas vezes. Cantei enquanto enchia meu coração com lembranças. Cantei enquanto olhava pra ela deitada em seu travesseiro,com sua respiração ofegante e seu olhar distante, mas ao mesmo tempo tão fitos em mim... Com muito pesar, mas com um certo alívio e o apoio dos meus pais, nos dirigimos a clinica veterinária. Eu não queria que a viagem no carro acabasse. Eu queria eternizar aquele momento e mudar a rota. Não a tirei dos meus braços pra nada. Ao chegar, eu estava segura e confiante. nem sequer havia derramado uma lágrima. Foi quando algumas funcionárias que sabiam da minha história com ela olharam pra mim e seus olhos falavam o pesar que sentiam por mim. Olhei para o lado e vi minha mãe engolindo o choro. Foi quando a ficha caiu! Era meu ultimo momento com ela. Não podia ser! Em meu coração eu suplicava,eu gemia, eu já não suportava a ideia...Alisei. Dei carinho. Abracei. Guardei aquele abraço. Ela sabia que meu amor naquele momento era o mais sincero amor que ela já havia recebido. E o médico chamou. Em meus braços, cada passo em direção a sala era como uma faca que entrava em nosso coração ao mesmo tempo. Eu não estava sozinha. Tinha uma amiga do meu lado me dando apoio. Aquela que passou algumas noites sem dormir comigo e a segurava em seus momentos de convulsões quando eu saía para chorar. (Obrigada Gabi!).
Entramos na sala.. O veterinário não conseguia achar uma veia sequer para aplicar anestesia. Depois de muitas tentativas (e eu cantarolando eu seu ouvido), ele decidiu aplicar na sua tão frágil coxa o remédio para ela dormir.. E eu firme e forte, estava me despedindo em seu ouvido. Dei meu ultimo beijo.  Seus olhos olharam nos meus pela última vez. E meu mundo começou a desabar. O chão ficava cada vez mais longe, e piorou quando a Gabi olhou pra nossa cena e começou a chorar. Ao telefone, em lágrimas, dizia para a sua mãe que eu estava me despedindo da Hanna. Me derramei. Segurei firme suas patas e ele aplicou o remédio. O remédio que a faria descansar antes do terrível momento. O remédio que a faria dormir e não sentir nenhuma dor. Mas num é que a filha da mãe ainda teve forças para morder o veterinário quando ele enfiou a agulha nela? Entre lágrimas e risos, eu me despedi. Mais um beijo. E a vi dormir... Esse foi meu ultimo momento ao seu lado. Sem dor, sem convulsões, sem sofrimento. Um sono profundo que a livrou de tudo. Um sono que nos separou e fez assim eternizar nossas lembranças.
Passei algumas noites sem dormir em casa... Minha mãe jogou fora seus remédios, travesseiros e tudo que me lembrava ela. Eu não suportava.
Lágrimas lavavam minha alma. Lembranças me acalmavam.
Passaram-se muitos dias/meses para que eu me recuperasse.
Não aguentava ver nossas fotos juntas.
Não aguentava dormir sem ela no meu quarto.
E os meses foram passando.
Um ano.
Faz um ano que ela me deixou. E esse texto é em sua memória. Se eu pudesse falar alguma coisa pra ela e ela entendesse literalmente, minhas palavras seriam: ''Obrigada por fazer 16 anos da minha vida uns dos mais felizes. Obrigada por me ensinar a amar incondicionalmente. Obrigada por brincar comigo quando eu era criança. Obrigada por me fazer parar de chorar na minha adolescência. Obrigada por ser uma companheira fiel na minha juventude. Te amei tanto quando você me amou. Nossa história foi linda,inesquecível e verdadeira. Será pra sempre contada. Sinto sua falta. Daria tudo pra te eternizar,mas nosso amor será eterno e como eu disse naquele dia, as águas não poderão o afogar meu amor, não se apagará!''.
Pesquisas dizem que crianças criadas com cachorros se tornam mais responsáveis e humanas. Sou prova viva disso. Você se torna uma pessoa melhor sim. Se meu coração já tinha tudo para ser tão grande assim, seu eu já tendia a ser uma pessoa tão dedicada e preocupada com as pessoas que vivem em meu baú de tesouros, ela definitivamente me ajudou nisso tudo.
Exatamente. Foi por causa dela.